quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Mercado russo é de grande importância para exportadoras de carne brasileiras

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O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento do Brasil anunciou no início desta semana que a Rússia liberou mais de cinquenta frigoríficos brasileiros para exportação de carne.

Entre eles, Mataboi, Frigoestrela, Marfig e Agra, de carne bovina, e Cotriji, de carne suína. Estes frigoríficos, portanto, já estão habilitados a exportar seus produtos para a Rússia. E sobre esse assunto nós vamos conversar agora com o engenheiro agrônomo Fernando Sampaio que é o diretor executivo da Abiec, Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne.
– Como é que os empresários brasileiros receberam a notícia da liberação, por parte da Rússia, para exportação desses produtos?
– Para a gente é bastante positivo. A indústria está fazendo um esforço muito grande para atender às normas da União Aduaneira que compreende a Rússia, a Bielorrússia e o Cazaquistão. É um esforço que tem sido feito ao longo dos últimos anos depois das visitas dos técnicos russos aqui no Brasil. As indústrias estão se adaptando, corrigindo os problemas que eventualmente foram encontrados. Isso é uma resposta positiva do trabalho que foi feito.
– A Rússia impôs restrições sobre as empresas brasileiras exportadoras de carne no dia 15 de julho de 2011, alegando que não atendiam aos padrões sanitários para consumo humano dos seus produtos. Neste momento, qual é o panorama. Quantas empresas exportadoras nós temos no Brasil para a Rússia e quantas estão exportando regularmente os seus produtos?
– Falando de carne bovina, a gente tem 59 plantas habilitadas para exportar para a Rússia, mas neste momento, nós temos 31 exportando.
– Estas 59 incluem as que foram liberadas nesta semana?
– Inclui. Na verdade, com este número de plantas, a gente pode perfeitamente atender à demanda do mercado russo.
– Quanto é que o Brasil está exportando de carne para a Rússia?
– O número que a gente tem agora, até a metade de 2014, foi de 143 mil toneladas. Tem sido bastante bom o mercado russo, um mercado que se interessa muito pelo Brasil, um Estado que compra e que paga, um excelente cliente do Brasil. A gente tem se esforçado muito para atender as exigências sanitárias russas, tanto do lado privado, como do lado do governo.
– Foi bom o seu comentário sobre o assunto, porque ao anunciar a liberação, por parte da Rússia, o ministro da Agricultura do Brasil, Neri Geller, afirmou que a Rússia apresenta exigências rigorosas em relação aos produtos alimentícios que entram no seu mercado e, para manter o diálogo, o Brasil deve fazer esforços para corresponder aos dogmas russos. Como os empresários brasileiros se adaptaram para atender as exigências russas?
– Isso é natural, o cliente é quem manda. Na Rússia tem exigências que são ainda adicionais às de outros mercados ou até mesmo que o Brasil cumpre internamente. A Rússia tem preço bom, paga, então a gente tem que se esforçar para atender o que eles querem.
– E o que é isso para as empresas representantes que tiveram que reprogramar os seus investimentos, adquirir equipamentos?
– Na maior parte, são controles laboratoriais adicionais aos que são feitos, medicinais, de algumas substâncias, adaptações dentro das plantas, mas nada de que seja impeditivo em curso ou que seja muito restritivo.
– Um dos motivos das restrições por parte da Rússia, se não o único motivo, foi o uso da substância ractopamina utilizada pelos pecuaristas para engordar o gado. Esta substância já foi retirada do gado brasileiro exportado para a Rússia?
– Esta substância no Brasil para bovino já era proibida, não é adotada. Mas mesmo assim, o controle é feito nas plantas, os lotes que vão para a Rússia são analisados para não conter ractopamina para garantir realmente que essa exigência seja atendida.
– A ractopamina está proibida no Brasil há quanto tempo?
– Para carne bovina, ela sempre esteve proibida. Houve uma tentativa de liberação, mas justamente isso foi brecado pela importância que a Rússia tem como mercado, assim como os outros mercados que a gente tem, que não aceitam o uso deste promotor de crescimento.
– A Rússia identificou essa substância em 2011 e impôs as restrições. Como se explica, se ela está proibida, por que ela foi encontrada?
– A gente tem que esclarecer: para os suínos, ela é usada. Para os suínos, o Brasil usa a ractopamina há muito tempo. Isso faz segregar a produção. Os mercados que não aceitam, tem uma produção separada. No bovino, não. Houve uma iniciativa de liberar esse produto também para os bovinos, mas, como eu falei, essa decisão foi suspensa. Então, não tem o uso no campo da ractopamina.
– Procedem as alegações de que a ractopamina é cancerígena?
– Não. O próprio Codex Alimentarius, o organismo internacional que trata de medicamentos, estabelece o limite que considera seguro da ractopamina. Mas é controverso, mesmo a decisão do Codex foi muito apertada. Se há países que não aceitam o uso, como é o caso da Rússia, têm suas razões para proteger os seus consumidores. É preciso respeitar isso.
– A Rússia continua sendo o segundo maior importador de carne brasileira?
– Sim, a Rússia no primeiro semestre deste ano, nós mandamos aqui mais de 640 mil toneladas. E o primeiro importador continua sendo Hong Kong que cresceu muito nos último ano pela demanda ali na Ásia, na China.
– Hong Kong compra quanta carne brasileira?
– Hong Kong comprou 190 mil toneladas.
– Quase 50 mil a mais do que a Rússia. E o terceiro comprador, quem é?
– Depois disso, no primeiro semestre deste ano, a Venezuela e depois, a União Europeia.
– Nós lembramos que a União Europeia e os Estados Unidos têm imposto um número muito grande de sanções à Rússia alegando questões políticas relacionadas à Ucrânia. Estas sanções abrem perspectivas para o Brasil e para o mercado sul-americano?
– Nós acreditamos que o Brasil tem demonstrado uma proximidade diplomática grande com a Rússia. Houve recentemente aqui a visita do presidente Putin ao Brasil, a reunião da cúpula do BRICS, a decisão de criar um Banco de Investimentos conjunto entre os países do BRICS. Essa aproximação tende a beneficiar os negócios de ambos, tanto da Rússia para o Brasil, como do Brasil para a Rússia. O nosso setor, onde a Rússia tem uma importância muito grande, a gente acredita que possa ter benefícios bilaterais.
 ***As opiniões expressas são de responsabilidade do entrevistado